Eu andava de bicicleta por uma estrada que tinha cheiro de lírios. Parei em um banco de madeira em frente a um horizonte que é impossível descrever em prosa ou versos. Sentei, cansada eu acho, e eu estava triste. Você sabe porque. Enfim, lá estava eu, conversando com o Criador em pensamento e olhares.
Então, ele surgiu e a estrada virou apenas um quintal.
O olhar dele era diferente. Quero dizer, era e não era. Ele era tão agitado quanto você e o K juntos, mas tinha seus momentos de reflexão profunda. Veja, eu disse reflexão, não propriamente tristeza. Normalmente, ele estava apenas filosofando, em seu intimo tranquilo, como a vida tinha suas belezas.
Sentou-se do meu lado e a primeira coisa que fez foi me abraçar. Senti, depois de tanto tempo, uma segurança que pensei ter perdido. Não falou nada, apenas ficou ali, abraçado comigo, como se quisesse simplesmente estar gesticulando sua eterna preocupação por mim.
Repentinamente, ele passou a cantarolar. Acho que era Like a star, da Corinne Bailey Rae. Foi quando fechei meus olhos. Vi cores. Vi lembranças. Vi luz. Vi o que imagino ser as mãos do nosso Pai Celeste. Tanta paz, tanta paz.
Não dissemos nada no sonho. Nada. Por isso sei que era o Less. O Less tinha suas maneiras de se fazer presente.
Antes de acordar, sem ao menos mexer os lábios, ouvi a voz dele, apenas me chamando.
Acordei meio com o coração partido, de tê-l visto. Aquela sensação de saudade que não passa. Mas logo ela deu espaço ao conforto que o sonho me proporcionou. A algo tão comum que passa despecebido, como uma neblina.
E tudo ficou tão claro. Tão triste e esperançosamente claro.
Marmota?
Diga ao Less, por gentileza... Nada. Abrace-o. É tudo que precisamos.
Amo vocês dois.


