terça-feira, 25 de novembro de 2008

A minha neblina

Essa noite, Marmota, eu não sonhei com você; sonhei com o Less. Grande amigo, lembra? Deve ser uma ótima companhia para caminhar nos campos da eternidade.
Eu andava de bicicleta por uma estrada que tinha cheiro de lírios. Parei em um banco de madeira em frente a um horizonte que é impossível descrever em prosa ou versos. Sentei, cansada eu acho, e eu estava triste. Você sabe porque. Enfim, lá estava eu, conversando com o Criador em pensamento e olhares.
Então, ele surgiu e a estrada virou apenas um quintal.
O olhar dele era diferente. Quero dizer, era e não era. Ele era tão agitado quanto você e o K juntos, mas tinha seus momentos de reflexão profunda. Veja, eu disse reflexão, não propriamente tristeza. Normalmente, ele estava apenas filosofando, em seu intimo tranquilo, como a vida tinha suas belezas.
Sentou-se do meu lado e a primeira coisa que fez foi me abraçar. Senti, depois de tanto tempo, uma segurança que pensei ter perdido. Não falou nada, apenas ficou ali, abraçado comigo, como se quisesse simplesmente estar gesticulando sua eterna preocupação por mim.
Repentinamente, ele passou a cantarolar. Acho que era Like a star, da Corinne Bailey Rae. Foi quando fechei meus olhos. Vi cores. Vi lembranças. Vi luz. Vi o que imagino ser as mãos do nosso Pai Celeste. Tanta paz, tanta paz.
Não dissemos nada no sonho. Nada. Por isso sei que era o Less. O Less tinha suas maneiras de se fazer presente.
Antes de acordar, sem ao menos mexer os lábios, ouvi a voz dele, apenas me chamando.
Acordei meio com o coração partido, de tê-l visto. Aquela sensação de saudade que não passa. Mas logo ela deu espaço ao conforto que o sonho me proporcionou. A algo tão comum que passa despecebido, como uma neblina.
E tudo ficou tão claro. Tão triste e esperançosamente claro.
Marmota?
Diga ao Less, por gentileza... Nada. Abrace-o. É tudo que precisamos.
Amo vocês dois.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Tudo que preciso é de Sinatra na vida.

Quando tudo sai do controle, ela se isola. E chora. Chora rios. Chora oceanos. Mas o vazio não se completa.
E ela adormece, sozinha, cansada de si, com o coração pesado, sem norte e sul. Mas por pouco tempo.
-Você não tem mais água no corpo, Kid.
-Eu sou a versão feminina do homer. Não preciso de água e sim de mé.
Ele, reluzente como o sol, aproxima-se e suspira.
-Belo sonho, Kid.
-Era o que precisava.
-Achei que você desestressava matando zumbis.
-Também. Mas hoje só preciso disso mesmo.
Uma pausa; ouve-se apenas o canto da brisa. É realmente um sonho.
-Sabe o que me ocorreu agora, Marmota?
-Quer voltar a sonhar com zumbis?
-Dã. Não. Pensei numa parte da música do Coldplay, manja, "I fix you"? Linda, por sinal, ela inteira. Mas tem uma parte que me ocorreu agora. Ela diz: "When you get what you want, but not what you need".
-"Quando você tem o que quer, mas não o que precisa". Muito poético e verdadeiro.
-E que se encaixa na minha realidade.
-A música inteira é sua temática atual, Kid.
-De fato. Mas essa parte me faz pensar na minha falta de controle, o que me faz surtar igual surtei. O que não me leva a nada.
-Você sempre surta, Kid. Em menor ou maior escala. O problema é quando a maior escala fica frequente. Mas sabe, Kid, não grila com isso. Você sempre surta, mas "des-surta" logo. E fica linda e bela pra viver.
Ela guarda as palavras cuidadosamente no coração.
-Eu sempre digo pra você que gostaria de ser diferente, né? Mas no fundo, só queria me aceitar como sou.
-Falando em música, tem uma que se encaixa agora. Uma partezinha muito singela do mestre Sinatra: "For nobody else, gave me a thrill, with all your faults, I Love you still".
Ela sorri. Ele sorri. O vento sopra. A luz do sol quase a cega, e ela acorda. Sem vazio, sem lágrimas. Nenhuma intenção de voltar a dar ouvidos a solidão que tanto a persegue.
Ao invés disso, ela ouve Sinatra.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Uai, tu não é paulixxtana não, tchê!

De todas as manias idiotas que eu tenho, a pior com certeza é a que chamo de "fonomania". De alguma forma (estupidamente) inexplicável, após alguns instantes em contato oral com algum indivíduo com qualquer espécime de sotaque, euzinha me contamino do mesmo "mal".
Em resumo: se vier um mineiro falar comigo, falo como ele; se um carioca puxar demais o s e o r, já era; lá estou eu parecendo que nasci em Niterói.
Mas fazia muito tempo que eu não lançava uma dessas.
Bom, fazia. Recentemente paguei esse mico.
Estava eu no ponto de ônibus, ouvindo música, xingando a cidade inteira por estar extremamente atrasada para uma reunião.
Em súbito, um cara brotou do meu lado:
-Oi!
Eu tirei o phone.
-Sim?
Eu o olhei; era bonito demais para ser paulistano (sem ofensas, amigos!). Sorri involuntariamente, só de ver o sorriso dele.
-Tu poderia me dizer qual ônibus eu pego para ir até a Paulista?
-Tu pode pegar o Largo São Francisco, Princesa Isabel ou Praça Julio Prestes.
Parei com a explicação. Tinha notado que eu falei "tu", ao invés de um singelo "você".
Ele voltou a sorrir.
-E eles param aqui ou lá? Eu estava ali até agora, mas falaram pra eu vir pra cá. Já não entendo mais nada dessa cidade.
(O "de" da cidade evidenciou de onde ele era).
-É meio confuso, mas tem uma paradinha aqui de relações de busões que vão e voltam. Se bem que galera de fora de sampa nem sabe, então, essa minha informação foi inútil.
De novo, ele me encantou com aquele sorrisão.
-Como tu chama?
-Rebeca. E tu?
Quase mordi minha língua. Segundo "tu" que saiu sem querer.
-Que nome lindo. Sou Gabriel. Prazer.
-Prazer.
Pensei que a conversa terminaria ai e assim, o grau evolutivo da fonomania não seria percebido.
Ledo engano:
-E ai Rebeca, tu mora por aqui?
-Moro pra lá.
-Legal. Eu sou do sul.
-Percebi.
-Há quanto tempo tu está em São Paulo?
Paralisei. -Como?
-Tu é do sul também não?
-Eu?
-Sim, tu tem sotaque também...
Meu primeiro pensamento foi me atirar na frente do ônibus, mas resolvi apenas pegá-lo.
-Foi um prazer te conhecer, tchê!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

A rebeldia.

-XIS!
-Por que tu sempre colocas essa tua lingua pra fora quando tiras foto comigo?
-Você não merece coisa melhor.
-Audácia!

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Logo se vê que é amor.



-Notei que esse teu olhar penetrante me segue a todo instante, desde que minha serva a trouxe para cá. Sejas muito bem-vinda. Esta rosa é para ti. Combina com essa outra rosa do teu vestido. Venho aqui para te agradecer por esse grande gesto de carinho. Fico lisongeado. É um satisfação grande ser alvo de tão pura concentração de admiração. Porém, sinto dizer que não posso compartilhar desse amor profundo. Não que eu não queria, mas não posso. Sou o senhor do Universo. Muitas vidas dependem da minha sabedoria e não posso me dar ao luxo de deserdar muitas almas perdidas para me aventurar contigo. Lamento. Lamento muitíssimo. Contudo, deixarei tu me seguir com os olhos. É o mínimo que posso fazer...

Relinchos.

-Nossa, eu realmente a destrui. Ela não tira os olhos de mim. Pobrezinha.