quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A perdição.


Ela mirava o monitor, com o olhar fixo nos seus pensamentos perdidos.
Ela, em si, estava perdida.

O cavalinho de pano arrastou seu corpo mole para perto.

-Vais desistir mesmo, serva?
-Não sei do que você tá falando.
-Estás olhando para a tela há 4 horas e não fizeste nada.
-Estou trabalhando.
-Não estás. Estás pensando.
-Agora lê pensamentos, cavalo idiota?
-É fácil interpretar teus pensamentos, serva. Basta ver teus olhos. Eles nunca esconderam a verdade. Agora, desembuchas. Tu desististe mesmo?
-A escolha não foi minha.
-Mas a luta é tua. Tua determinação escorregou pelo ralo hoje de manhã, é?
-Não posso simplesmente fazer algo que só eu quero.
-Mas podes mostrar a verdade que é tão certeira em ti.
-Já fiz isso.
-Talvez não da maneira certa.
-Que outras maneiras existem?
-Várias.
-Eu não vou conseguir.
-Tu não sabes.
-Já perdi.
-Uma batalha.
-Decisiva.
-A decisão de perder parte apenas do desertor.
-Então sou desertora.
-De todas as coisas, serva, és a única coisa que tu não és.
-Pra quê? É uma luta perdida.
-Achas que é perdida porque tens medo.
-E por que não teria?
-Tu sabes o motivo.

Silêncio. Ela suspirou, com uma tristeza que não conseguia esconder. Não encarou o companheiro de pano. Segurou a cabeça com a mão, apoiada a mesa, pesada de pensamentos sem cor.
O cavalinho notou o brilho de pranto no olhar - nada disse. Apenas encostou-se no braço curvado dela.

-Força tu tens, serva. Determinação também. Agora, só falta usá-los e segui-los.
E ele sentiu uma chuva de lágrimas.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O coração que bate.

Eu comecei a namorar o Rodrigo por experiência. Pura curiosidade. Para ver o que um homem poderia oferecer de tão grandioso para uma mulher que a fizesse querer ficar só com ele. Bom, segui a cartilha: fomos ao cinema, nos agarramos no carro, jantamos, nos atracamos no estacionamento, saímos para beber, nos amassamos no banheiro e depois de umas caipirinhas, na mesa mesmo. Ele me telefonava toda a hora, me mandava e-mails cheios de frufru, arranjos de flores enormes, bichinhos de pelúcia, chocolates, roupas, bilhetinhos, acessórios, CDs, DVDs, livros, inutilidades domésticas... Quando eu vi, ele tinha me dado até uma assinatura de TV a cabo, com GNT, People & Arts e Telecine Family. Tudo isso em menos de três semanas de namoro. TRÊS. Aí parei tudo, né? Mulher gosta de ganhar coisas, mas pelo amor de Deus. Telecine Family? Que fosse o Discovery Health então. Mas, sério, bodiei rápido. Muito grudento, muito cheio de conversa mole... E não era a única coisa nele que era mole. Ou seja, não vi nada de grandioso no que um homem pode oferecer para uma mulher. Então, decretei que a vida de solteira combinava mais comigo, sabe? Namorar dá muito trabalho. É muita mão-de-obra com a manutenção – e normalmente, o resultado nunca é o esperado. Além de gastar uma grana que benza-me Deus. É dinheiro pra presente de namoro, presente de aniversário, presente de páscoa, de Natal, de réveillon, do primeiro beijo, transa, apresentação para os amigos, os pais, para o vizinho, para o padeiro, pra torcida do flamengo inteira. Aí, não sobra nunca tempo pra ir a manicure ou ao cabeleireiro porque a dondoca tem que estar presente quando tem festinha do escritório dele. E depois tem que ouvir desaforos do tipo “você fez algo no cabelo? Não? Acordou assim? Ah, então é só impressão, a luz, está diferente, ... Bonito, tá bonito, viu? Tá gata!”. Tenha dó. Homem só atrapalha. Homem é bom por duas ocasiões: para massagem no pé e ego. Fim. Para quê mais? Eu tenho é dó dessas menininhas todas apaixonadinhas, prontinhas pra casar com o fulaninho. É uma glicose que não tem fim. Credo. Fora os apelidinhos, “ai meu chuchu, ai minha tarantulazinha, ai meu porquinho-inho, ai minha gaivotinha”. Por que os apelidos são sempre no diminutivo, com biquinho e normalmente, envolvendo animais? Eu tenho uma teoria para a última citação: seu namorado te chama como? De ovelhinha? Vê lá aonde você está uma “ovelhinha”, se cuida garota! Tudo é relacionado à realidade, inconscientemente. O seu noivo te apelidou de “fofucha”? Fica de olho na balança, minha amiga, porque a coisa deve estar pegando naqueles docinhos depois do almoço, sabe? Ah, não, Deus me livre. É muito mimimimi pra mim. Amor é uma coisa que eu só gosto em novela: um Mané ali, uma tonta aqui, eles se apaixonam, se jogam no amor, vem uma bruaca, tenta atrapalhar tudo, coloca um zilhão de planos em prática e no fim, o Mané e tonta ficam juntos. Na vida real, na primeira piscadela mais torta, o Mané estaria com a bruaca. Por isso que eu acho que esse lance de amor é só um conformismo. E não combina comigo. Sou independente. Tenho carro, apartamento, um gato. Eu viajo, saio pra caramba, sou totalmente feliz... Eu achava. Eu o conheci numa banca de jornal. Ele simplesmente me fez tropeçar numa pilha de revistas do lado de fora. Sujei meu Channel. Isso para uma mulher é quase uma sentença de morte. Eu iria fazê-lo engolir todos os exemplares do Cebolinha, quando me distrai com os olhos dele. E o sorriso. Que estragou meu Channel, mas quem se importa? O sorriso era ma-ra. Para se desculpar ele me chamou para sair. Óbvio, típico de homem, querendo comprar perdão. Eu fui, claro. Era só um jantar de desculpas, afinal, eu merecia. Primeiro, velas, música, champagne,... Tudo perfeito... Para uma noite de perdão. A luz refletia nos olhos dele, no sorriso, aquele clima romântico todo... Que eu odeio, claro. Então, ele me levou pra casa, eu me despedi, e ele meio que me beijou. Eu senti um frio descendo a espinha, mas deve ter sido por causa do vento ou do ar condicionado. Daí, no outro dia, eu já estava esperando ele me ligar. Todo homem interessado faz isso, né? Mas... Ele não ligou. Nem no outro dia. Achei ótimo, eu lá quero namorar um sujeito que encontrei na banca e acabou com meu Channel? Que absurdo... E o mais absurdo é que não parei de pensar no por que. Por que ele não me ligaria? Eu sou uma mulher bacana, bem-sucedida, bonita,... Aí, quando estava voltando do trabalho, lá estava ele, com uma rosa na mão, no portão do meu prédio, com aquele sorriso. Ah, aquele sorriso... O único e o último sorriso que admirei (mostra o anel).

Olha, ainda acho que homens são inúteis. Só atrapalham. Cheio de manias, mimimis e chatices.(sorrindo) Ainda bem.


*

-Foi isso que tu mandaste pra diretora?

-Algum problema, ó senhor do universo?

-Nenhum.

-Sei.

*Relincho*

-Quê?

-Tenho uma questão.

-Obviamente.

-Por que escreveste sobre isso?

-Baseei nas mulheres e especial na minha melhor amiga. Todo mundo se apaixona um dia, de verdade. É sobre isso, as coisas do coração.

-Certo.

-Ótimo.

*Relincho*

-Que foi agora, saco?

-Outra questão.

-Sempre.

-Tu disseste que esse monólogo se baseou nas mulheres.

-Sim

-Acreditas nesse moral?

-Sim. O coração é um ser a parte das pessoas, eu acho. Ele não tem controle. Assim, quando você se apaixona, é batata. C'est fini, você se entrega, se joga, sem medo.

-Por que nunca dá certo?

-O que quer dizer?

-Como sabes que essa mulher do texto vai ser feliz?

-Eu não sei. Ela vai tentar. Isso que vale.

-Vocês humanos são estranhos.

-Eu sei. Mas não trocaria de raça nunca na vida.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Why so serious?

-Para um vilão, tu és bem engraçadinho.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Em épocas tensas.

-Embora eu seja um ser superior, nunca se sabe.
-Você pode usar essa máscara depois como cobertor, Pé.
-Audácia.

domingo, 21 de junho de 2009

Comparação absurda.

-Quando eu disse que eu derrotaria facilmente esse infeliz, ela riu. Ainda não sei porquê.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A renovação da pose.

-Caríssimos! Sim, eu voltei! Voltei ao meu cargo! Minha soberania foi redescoberta e finalmente aceita! É, eu também acho, pequeno bonequinho de madeira estranho. Aliás, aconselho-te a tirar isso daí da boca. Enfim, demorei demais, mas quem galga sempre alcança! Ainda mais eu, o Senhor do Universo, que tudo posso e minha luz é essencial a todos! Em épocas passadas, servi de inspiração para muitos servos como vocês, perdidos em um destino incerto e obscuro. Pobrezinhos, eram tão tolos sem minha sabedoria! Mas o tempo passou e novos servos precisam dela! E eu, observando do alto do monitor, percebi que vocês são os escolhidos! Terão o privilégio de me seguir e adorar por toda a eternidade! Sim, zebrinha, é um dádiva, também acho. Ó! Um salve! Obrigado, leãozinho anfetaminado, macaquinho bizarro com um pedaço de bambum na mão e...e... ser estranho com um cocar na cabeça. Que bela homenagem! Eu sei que mereço! Vocês deveriam estar esperando um líder há muito tempo! Mas suas ansiosidades morrem aqui! Eu, Pé-de-pano, senhor do Universo, voltei! Agora, iniciarei meu discurso de pose suprema da vida de vocês e... e... Com licença, servo que estás batendo no teclado enlouquecidamente. Tu estás atrapalhando meu discurso, não percebes? Tenhas a decência de deixar que eu termine para voltar ao teu trabalho. Aliás, tu deverias prestar atenção também, porque com certeza pode ser útil a tua nova vida de servo. ÓTimo, como eu ia dizendo... Ei, o que estás fazendo servo? O quê é isso, pra onde estás me levando? Ah! Então tu estás se rebelando, como minha serva mais ingrata e... ARGH! Tinha esquecido que ser o Senhor do Universo tinha essas desvantagens.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Back to black.

Agora, o Pé-de-pano voltou às suas origens: ao monitor de uma empresa de jogos online. Antes, escorreu seu corpinho pela mesa, mas caiu no lixo. Tentou se aconchegar entre os papéis, mas quase que a moça da limpeza o levou junto.
Assim, rendeu a sua nostálgica posição e por lá ficou.
Porém, de vingança, não esparramou-se no monitor da Rebi, como costumeiro: fincou bandeira em um onde, estratégico, já pensou em lançar sua nova campanha, "Pé-de-pano abre inscrições para servos" ao alvo que avistou de lá de cima: meia dúzia de bichinhos de pelúcia do McDonalds. Seu ajudante nesse empreitada foi o Rato Vermelho Esmagado, como o nomeou logo de cara, que não pareceu muito interessado no plano, mas foi incluído da mesma forma.
Ele realmente voltou a ativa.